segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Opinião - "A Célula Adormecida", de Nuno Nepomuceno






Autor: Nuno Nepomuceno
Editor: Top Books
ISBN9789897060502
Edição ou reimpressão
Páginas592




Sinopse

«Assim queira Deus, o Califado foi estabelecido e iremos invadir-vos como vocês nos invadiram. Iremos capturar as vossas mulheres como vocês capturaram as nossas mulheres. Vamos deixar os vossos filhos órfãos como vocês deixaram órfãos os nossos filhos.»
Daesh, o autoproclamado Estado Islâmico, 2014.

Em plena noite eleitoral, o novo primeiro-ministro português é encontrado morto. Ao mesmo tempo, em Istambul, na Turquia, uma reputada jornalista vive uma experiência transcendente. E em Lisboa, o pânico instala-se quando um autocarro é feito refém no centro da cidade. O autoproclamado Estado Islâmico reivindica o ataque e mostra toda a sua força com uma mensagem arrepiante.
O país desperta para o terror e o medo cresce na sociedade. Um grande evento de dimensão mundial aproxima-se e há claros indícios de que uma célula terrorista se encontra entre nós. Todas as pistas são importantes para o SIS, sobretudo, quando Afonso Catalão, um conhecido especialista em Ciência Política e Estudos Orientais, é implicado.
De antecedentes obscuros, o professor vê-se subitamente envolvido numa estranha sucessão de acontecimentos. E eis que uma modesta família muçulmana refugiada em Portugal surge em cena.
A luta contra o tempo começa e a Afonso só é dada uma hipótese para se ilibar: confrontar o passado e reviver o amor por uma mulher que já antes o conduziu ao limiar da própria destruição.

Opinião

A minha saga com este livro começou no dia em que foi anunciado o seu lançamento. Tendo lido a trilogia Freelancer, estava muito curiosa com os trabalhos futuros do autor. Para ajudar à festa, a sinopse é muito cativante, e a capa absolutamente linda. Apesar dessa imensa vontade de o ler, só comprei o livro por volta da segunda semana de Novembro, e quando iniciei a leitura tentei levar o meu tempo a apreciar a história (inicialmente até consegui, mas as últimas 300 páginas foram lidas num dia. Ups!).
O tema central deste livro despertou-me logo muito interesse, por ser muito atual e extremamente controverso. O autor consegue informar sem ser maçador, não "descarregando" toda a informação num único momento, mas dividindo e utilizando diversas técnicas para a revelar. Outra coisa que adoro nos livros dele é estar constantemente a aprender vocabulário. As explicações relativamente à guerra do petróleo, à origem do financiamento do Daesh e ao que é, afinal, o Islão são extremamente bem conseguidas. A narrativa é, tal como nos livros anteriores, muito cinematográfica. As personagens parecem muito reais, o que me levou a gostar delas, a sofrer com elas, a surpreender-me por diversas vezes, e a manter um desagrado bem marcado em relação a outras. 
Os capítulos curtos são fantásticos para o ritmo de leitura, mas péssimos para quem quer pousar o livro. Várias vezes dei por mim a iniciar o capítulo seguinte sem dar conta, a ter que voltar atrás para confirmar em que dia do Ramadão estava, a tapar a página com a mão para me controlar e não ler mais.
A abordagem de temas como o racismo, a xenofobia, a exclusão social e todo um preconceito religioso que, infelizmente, assisto muito na nossa sociedade é feita de uma forma subtil, mas essas questões deixam a sua marca, abrem-nos os olhos para o que nos rodeia, e tornam-se insistentes no nosso pensamento. 
Não me quero alongar, por medo de revelar demasiado ou tirar a vontade de ler a alguém, mas quero só dizer que, para mim, a mensagem central deste belíssimo livro é a que o ódio só gera mais ódio, apenas o amor, o respeito e a aceitação pelos outros permitem uma convivência pacífica e agradável.
Este é sem dúvida o meu livro favorito do autor até agora.



E por aí, alguém já leu este ou outros livros do autor? O que acharam?


sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Opinião - "Perguntem a Sarah Gross", de João Pinto Coelho







Autor: João Pinto CoelhoEditor: Dom QuixoteISBN9789722057103Edição ou reimpressãoPáginas448EncadernaçãoCapa mole















Sinopse

Em 1968, Kimberly Parker, uma jovem professora de Literatura, atravessa os Estados Unidos para ir ensinar no colégio mais elitista da Nova Inglaterra, dirigido por uma mulher carismática e misteriosa chamada Sarah Gross. Foge de um segredo terrível e procura em St. Oswald’s a paz possível com a companhia da exuberante Miranda, o encanto e a sensibilidade de Clement e sobretudo a cumplicidade de Sarah. Mas a verdade persegue Kimberly até ali e, no dia em que toma a decisão que a poderia salvar, uma tragédia abala inesperadamente a instituição centenária, abrindo as portas a um passado avassalador. 

Nos corredores da universidade ou no apertado gueto de Cracóvia; à sombra dos choupos de Birkenau ou pelas ruas de Auschwitz quando ainda era uma cidade feliz, Kimberly mergulha numa história brutal de dor e sobrevivência para a qual ninguém a preparou.
Rigoroso, imaginativo e profundamente cinematográfico, com diálogos magistrais e personagens inesquecíveis, Perguntem a Sarah Gross é um romance trepidante que nos dá a conhecer a cidade que se tornou o mais famoso campo de extermínio da História. A obra foi finalista do prémio LeYa em 2014.


Opinião

Para dizer a verdade nem liguei à sinopse do livro. Foi de tanto ouvir falar bem dele que o decidi ler, e, apesar de não ser ler muitos livros sobre este tema, sinto-me verdadeiramente feliz por o ter feito. 
Achei o início um pouco lento, sendo que só a cerca de metade do livro me senti verdadeiramente envolvida na história. No entanto, mesmo durante a parte lenta, adorei a forma como o autor descreve os locais, principalmente a Polónia. 
A partir de um certo acontecimento tudo se desenvolve de uma forma que me deixou colada às páginas, a querer respostas, mas ao mesmo tempo horrorizada com elas. E no final, quando achava que já nada me tinha recomposto das emoções, há uma revelação tão inesperada que fiquei de coração pequenino.
Este livro belíssimo retrata tantos "podres" da sociedade de uma forma tão inteligente e bem interligada que quase nem damos pela presença de todos eles. 

Foi uma leitura revoltante. Fiquei muito tempo a pensar em como terão as pessoas arranjado vontade para sobreviver em condições tão degradantes como as dos campos de extermínio. Quem me dera poder ouvir a história de cada um deles, se essas pessoas decidissem que a queriam partilhar. Porque não podemos nunca deixar que o holocausto se torne uma memória apagada, nem permitir que tal barbaridade volte a existir. 

No dia a seguir a acabar de ler este livro perguntaram-me se ele era bom, se valia a pena ler. Não consegui responder logo, nem consegui fazê-lo sem me virem lágrimas aos olhos. É muito bom, nem sequer o consigo recomendar suficientemente bem.



Não sei se o autor alguma vez vai ler isto, mas tenho umas palavras para ele. Antes de mais um grande agradecimento por ter escrito esta obra maravilhosa. E um obrigado também por ter sido tão acessível e simpático na Feira do Livro (eu prometi-lhe que iria dar a minha opinião, e cá está ela). E quero que saiba que se voltar a publicar, tem pelo menos uma leitora garantida.